TRABALHO DO MIOCÁRDIO
Dentro da sala, feita para reuniões um homem desabafou: Comecei cedo. Com dezessete anos eu entrei. Minha família sempre me orientava enquanto eu ia ficando cada vez mais envolvido a ponto de não conseguir me desligar e nem parar mais. Comprometi minha vida e amigos. Perdi muito dinheiro, mas também ganhei. Meu primeiro milhão veio aos 21!
Antes que confunda este depoimento, verdadeiro, com o de um traficante que começou como um viciado, esqueça o traficante e se concentre no viciado. No viciado em trabalho! Ou workaholic como preferem os dessa espécie. Um termo americano originário da palavra alcoólatra e empregado a trabalhadores extremos, anônimos, registrados e até autônomos.
Espécie de trabalhadores que sempre existiram, assim como os homossexuais e os extraterrestres, mas que ultimamente se acentuou a exposição, devido à alta competição no mercado de trabalho e a obsessão por dinheiro. Sem falar na vaidade e na necessidade de provar algo a alguém ou a si mesmo. O que não acontece com os extraterrestres. Até agora!
Duas outras práticas que também só acontecem nesta Terra é a mania de nomear as coisas e a de seguir padrões estrangeiros. Isso quando não faz as duas ao mesmo tempo. Nomeia e batiza diversas coisas com nomes de fora. Viciado é workaholic, nervoso é estressado e nem os filhos escapam. Ex.: Natália agora é Nathiellye. Uma criatura quase extraterrestre!
O que torna a coisa ainda mais curiosa é o fato do Brasil ter sido colonizado pela Europa, mas só seguir exemplos da América do Norte. Principalmente os piores exemplos: Arquitetura reta baseada em concreto e vidro, fast-food e just-in-time. Rumo a tacocracia! Outro termo (mas este é grego) que estabelece a rapidez e pressa como diretrizes principais.
Façamos uma pausa. Sem pressa, eu continuo. Não quero ser como o cara que citei no começo. E se serve de conselho ou alerta, não gostaria que você ficasse como ele. Talvez você possa ter se vislumbrado só com a última frase do desabafo: Ganhar um milhão! Mas e o resto? Prestou atenção no resto? Em troca do dinheiro poderá perder o mais importante.
Tenho 29 anos, começando a carreira, sou muito acelerado, não tomo Gardenal, ainda, trabalho 18 horas por dia e quem estiver comigo vai ganhar muito dinheiro. Mas no começo será pouco e terá que fazer de tudo! Entrar cedo e não garanto que sairá as 19, pois muitas vezes será as 20 ou 21. Mas pago hora extra e deixo levar trabalho para casa!
Essas foram as demais palavras ditas pelo próprio cara, que um dia eu conheci numa entrevista de emprego, nomeado como diretor comercial numa empresa, fisicamente parecido com o Álvaro Garnero, só que sem os músculos, só o rosto e cabelo, pois não tem tempo de cuidar da saúde. Trabalha muito! E deve dormir e comer só quando sobra tempo.
Mas se orgulha disso! E você viu que legal! Ele deixa levar trabalho para casa! Que ótimo! Imagine você chegando em casa, depois das dez, sua família te esperando, aí você abre a porta, diz que tem uma surpresa e grita com um sorriso no rosto: Trouxe trabalho para casa! Uhu! Que excelente! Seu chefe é incrível! Só não reclame da separação ou dos chifres ok?
Esse mesmo cara me disse na ocasião, que eu estava perdendo pontos, por que enquanto me entrevistava, o que para mim mais parecia um desabafo, eu não estava anotando nada. Já que a sua vida era toda baseada num organizador de tarefas e compromissos comerciais. O mais interessante é que durante esse tempo, trocou meu nome 3 vezes. Que é igual ao dele!
Talvez ele esteja certo em tudo. E por isso eu não consegui o emprego. O que certamente significaria falta de sossego. Mas pelo menos eu iria ganhar muito dinheiro! Quem sabe até o suficiente para pagar o tratamento de saúde após alguns anos lá, se aguentasse passar meses, ou dias! E aprenderia a conviver com um ser que para morrer basta perder a agenda.
Foi uma experiência impagável. O bastante pra aprendermos três coisas muito importantes: Primeira: Eu estava anotando tudo que ele dizia. Só que ao invés da caneta, usava a mente!
Segunda: No ritmo que ele vai, acabará ganhando seu primeiro enfarto com 31! E terceira: A vida é nossa maior empresa. E se for à falência, dinheiro nenhum irá nos tirar do buraco!
Fernando Ferrari
fffernandoferrari@gmail.com
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27/04/2011
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Parabens, ótimo texto!
ResponderExcluirGenial. Cada dia mais devemos olhar bem onde estamos pisando. Sucesso está sendo confundido com doença.
ResponderExcluirFez certo, e inspirou muitas pessoas!
Nossa Fernando texto sensacional e o pior, verdadeiro!
ResponderExcluirMas agora me pergunto, eu, por exemplo, que me graduei em Publicidade e quero seguir a carreira de atendimento tenho outro caminho a não ser esse?
Afinal todas as agências e agora até as empresas trabalham mais do que deveriam e esse aprece ser o único caminho para o estrelato.
Como fazer?
Abs
Sâmia
Faz me crer que essas promessas de riqueza são aquelas que até hoje são usadas para seduzir mulheres e dar calote em empregados.
ResponderExcluirexcelente desabafo, caro Fernando. Concordo em todos os sentidos com suas palavras. Infelizmente, o dinheiro vem em primeiro lugar e o resto, f.......!
ResponderExcluirVocê não deixou de ganhar um emprego, você deixou de não perder tempo com quem não sabe o que viver.
muito bom! concordo plenamente, toda dedicação tem limite, por mais prazeroso q seja o trabalho. Existe vida além do escritório!!!
ResponderExcluirMuito bom!
ResponderExcluirEstá é a minha filosofia de vida: "Trabalhar para viver, e não viver para trabalhar"!
Obrigado pelo post!
Pessoal, obrigado pelas palavras com relação ao post, este é mais um sinal de que muitas pessoas pensam igual, mas poucos saem do normal; um conselho para não se desesperarem por que a situação pode ficar pior; um caminho para quem se pergunta aonde vamos parar; algumas palavras para transformar um momento ruim em algo bom; e um pedido para que se alguém quiser dar uma oportunidade decente para alguém desesparado por trabalho, essa é a chance de fazer um cara acreditar que se todo mundo tem sua hora e direito de um lugar ao Sol, não posso me enforcar no cano do chuveiro antes de viver isso. Obrigado... fffernandoferrari@gmail.com
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